Agentes Muito Especiais (2025)

O selo da Globo Filmes em coproduções de comédias nacionais se tornou, para determinado grupo de espectadores, sinônimo de projetos extremamente populares, com pouca qualidade artística e de humor duvidoso. Baseada em certo elitismo (afinal, o fato de ser extremamente popular indica, em algum nível, um método de produção específico para atingir os números altos de bilheteria), esse tipo de reflexão pode ser rebatido com exemplos como a gigantesca franquia Minha Mãe é uma Peça, liderada pelo saudoso Paulo Gustavo, uma das vítimas da negligência governamental brasileira durante a pandemia de covid-19.

Obviamente, alguns desses filmes são melhores do que outros, como em qualquer categoria que uma produção possa se encaixar no cinema. Agentes Muito Especiais, que chega aos cinemas no dia 8 de janeiro, é uma boa surpresa no meio dessas coproduções que causam o revirar de olhos de tanta gente. Com ideia original do próprio Paulo Gustavo, em parceria com Marcus Majella, que protagoniza o longa ao lado de Pedroca Monteiro, a comédia acompanha Jeff (Majella) e Johnny (Pedroca), dois agentes policiais gays que, após se unirem no COIP (Centro de Operações de Inteligência da Polícia), se infiltram numa penitenciária para desmantelar o temido Bando da Onça, quadrilha liderada por uma misteriosa criminosa.

Marcus Majella e Pedroca Monteiro seguram as piadas roteirizadas e improvisadas com maestria, do humor mais bobo e mainstream até as piadas mais específicas e nichadas. O roteiro de Fil Braz e a direção de Pedro Antonio mergulham em alguns clichês do subgênero da comédia policial e nem sempre acertam, mas quando o faz, provoca boas risadas. Sendo gay e pensando no histórico do cinema de comédia num geral, é verdadeiramente um alívio ver a quantidade de piadas bem aproveitadas e não-problemáticas no que diz respeito à sexualidade dos protagonistas. Entendo que uma piada ou outra possa cair num lugar comum de piadas do tipo, mas acho que o contrário acontece de forma mais forte aqui, muito por conta da já citada química entre os protagonistas, mas também, com certeza, pelo envolvimento de Majella e Paulo Gustavo desde o momento zero da ideia do longa.

O filme tem a proposta de quebrar estereótipos presentes em ambientes predominantemente masculinos, levando isso para dentro da narrativa. Um bom objetivo, claro, mas também é onde reside o principal ponto negativo do filme, e talvez até o elemento mais problemático da obra. No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, falar de policiais honestos e destemidos que enfrentam uma quadrilha que planeja o roubo de joias é de uma “inocência” bastante questionável, ainda mais com o uso de diversos artifícios para deixar essa polícia explicitamente distante da realidade e com uma roupagem de cinema policial americanizado, partindo mesmo dos nomes adotados pelos personagens. Uma pena.

Ainda assim, Agentes Muito Especiais merece destaque por seus pontos positivos: elenco visivelmente se divertindo, com destaque para ótimos momentos de Dira Paes, e piadas bem alinhadas com os espectadores LGBT+ que forem assistir. Paulo Gustavo deixou um ótimo legado.